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Devora por dentro


O doutor dizia ser câncer. 


Madalena era uma mulher muito crédula, sendo criada em um lar estritamente religioso, já era de se esperar que fosse assim. A pobre mulher acreditava que uma força invisível e não divina andava junto à sombra de sua filha, Alva.

Pobre mãe! Tentava de todas as formas afastar as pessoas da vida de sua filha acreditando que na mesma habitava um mal irremediável

Alva era uma frágil menina que todos os meses contradizia os diagnósticos e a estimativa do tempo de vida que seus médicos lhe atribuíam.

Neste último aniversário, completava 12 anos, o velho doutor da família, Jean Paulo sorria ao dizer enquanto jogava a pasta com os exames de Alva sobre a mesa, que a filha de Madalena teria apenas umas duas semanas de vida. Todos já se acostumaram com as súbitas melhoras de Alva logo após uma queda na cama.

A menina tinha de todo uma beleza comum, mas algo profundo chamava em seus olhos, o que fazia com que quem conversasse com Alva por muito tempo, olhar sempre para os lados a procura de alguém que não estava lá. Alguns diziam sentir calafrios apenas por ficar ao seu lado.

Madalena já beirava os 45 de idade quando Alva completava doze, no entanto sua expressão era bem mais cansada dando à mãe uma aparência bem mais velha.

Alva dava passos leves de sua cama até a imensa escada caracol da bem fadada mansão que os avós de Madalena havia a deixado de herança. Seus passos pouco se ouviam e com a mãe atarefada com os criados na cozinha escutando alguma velha estação am, a menina aproveitava para observar e imaginar as historias daquela enorme casa onde vivera os seus poucos doze anos de vida.

Os dedos finos e pálidos tocaram o corrimão, se fechasse os olhos era possível ver as pessoas em tempos de outrora subindo e descendo aquelas escadas. O devaneio da garota foi quebrado pelo balançar do lustre cimado ao olho do caracol, pendurado por uma dourada corrente ao teto envidraçado com vitral do que parecia ser são miguel perfurando o diabo.

Os cristais de vidro tilintavam e o lustre como um todo balançava e tal qual começou também parou.

Alva ficou compenetrada em sua observação esperando que algo mais ocorresse por milagre ou bruxaria.

De súbito a garota se vira e a vertigem toma seu corpo que voa para trás com o golpe que tomara no peito. A queda fez um momento parecer uma eternidade enquanto despencava os degraus e sentia seus ossos se partindo.

Com os olhos arregalados, sem poder se mover Alva não escuta mais nada a sua volta. Nem mesmo quando todos da casa vieram para ter cuidado com a menina, nem mesmo quando sua mãe foi aplicar-lhe sermão por ser estabanada e brincar onde não deve.

Passara os últimos dias de cama tentando entender o que a derrubou da escada, o que golpeou seu peito. Seus primeiros dias com doze anos não foram afortunados e Madalena já debatia com a ama de Alva sobre interna-la em algum reformatório para que agregasse boas práticas.

O teto, a janela e seus pés eram as coisas que mais observava enquanto permanecia naquele estado de repouso. Sentia algo que a espreitava naquele momento que a mãe andava para cima e para baixo procurando entre os criados algumas coisas que andavam desaparecendo pela casa.

E sumiu, uma boneca sobre a comoda em frente a cama, assim diante dos olhos de Alva... A menina não gritou, não conseguia, apenas uma lágrima escorreu pelo canto dos olhos. O terror estava nas veias da garotinha enrijecendo suas extremidades, tudo ficou escuro diante da menina que só acordou três dias depois rodeada pelos criados e Madalena.

Todos encaravam a menina como se tivesse voltado do inferno, foi quando percebeu que aquele não era seu quarto, era mais simples e não reconhecia moveis, paredes ou teto.

-Mamãe, o que aconteceu? Ainda acordando a pergunta bateu em todos mas apenas Madalena teve força para responder.

-O doutor disse que foi o câncer...

O segredo de Joel Oliveira


Era angustia a bebida favorita de Teodoro. Tentava encontrar uma forma de substituir a beleza que faltava à alma, pela fingida alegria tatuada em seu rosto.

Ninguém aguenta muito tempo sendo o que não é e a mascara tende a descolar da face.

Foi em uma tarde fria que Teodoro surtou a primeira vez. Logo que os colegas do trabalho na carvoaria perceberam, o rapaz foi mandado para o sanatório. 
O doutor disse que eram os nervos e que precisaria de terapia de eletrochoque, e uma lista do tamanho do meu braço de remédios e outros cuidados.

As taças brilhavam cheias ao meio da noite em plena mesa farta de pratos vazios de uma alimento já consumido. 

Cláudia, mãe de Renata me contou esse trecho de um trágico ocorrido com o pai de Joel, seu marido...

A jovem senhora já estava a par dos meus negócios ali e com todo decoro me questionou sobre meu embasamento para tal afirmação que fiz.

A ferida em minha mão começa a coçar, ainda não tinha passado por isso. O fenômeno me fez segurar com maior firmeza um dos talheres de prata e observar com maior atenção os cantos daquela grande casa. 

-Dona Cláudia, desculpe a indelicadeza mas onde está seu marido? Caso a senhora prefira ver o corpo da fera no pasto a uns dois quilômetros daqui para que algo que eu digo tenha algum crédito.

O vento soprou mais forte naquele momento o que fez os vidros das janelas cantarem desafinadamente. Um incomodo percorreu meu braço e a necessidade de sair logo dali tomava cada vez mais minha mente. 

Eram dourados em meio a densa escuridão lá fora. E a fina vidraça da porta não confortava do panico que espreita. Mesmo não o desejando a filha e a esposa de Joel me acompanham até o corredor de entrada da grande casa e ali testemunham o que tentei dizer claramente; a criatura ainda caminha e deseja continuar nossa peleja anterior.

A grande sombra em um movimento rápido sumiu de nossa vista e em uma sequencia rápida destroçou as janelas do primeiro andar da casa. 
Por reflexo, Cláudia abraça Renata tentando proteger a filha dos cacos de vidro que voaram por todo canto. 
Com a arma engatilhada tomo a frente procurando a criatura entre as janelas, por algum lugar ele vai entrar, eu sei...

-Há um porão na casa?




Bocas Vorazes


Foram seis balas que descarreguei no crânio daquela coisa.

Era alto e revestido por pelos negros, havia em seu odor algo de azedo e era perceptível duas enormes presas por onde escorria sangue, seu e talvez de quem se alimentara.

Segundo moradores locais, entre transeuntes e bêbados recostados em alguns botecos, havia uma coisa que devorava o gado a noite e que os Oliveira estavam sofrendo perdas terríveis com tal besta a assolar sua propriedade.

Os Oliveira eram a família mais abastada e aparentava ser um lar harmonioso e pacífico. Joel Abelardo Oliveira, sendo o chefe da família e pastor da comunidade evangélica local, a todos trazia conforto e admoestava aqueles que se perdiam.

Quando fui chamado por dona Helena, mãe de minha assistente, não acreditei muito de começo, até mesmo quando fui diretamente falar com a família de Joel. No entanto o mesmo não se encontrava em casa, dizia sua esposa que seu marido estava a preparar o culto daquela noite e que tinha por predição ficar sozinho para orar ao Senhor.

"Ah, Pedro... por favor, o senhor sabe que nunca peço nada! Só para aquietar minha mãe que não passa as noites sem falar em outra coisa! Pois pelo que vejo das pilhas de livros sobre ocultismo que vem se acumulando no escritório, mudou de profissão ou anda vendo muito filme de terror!"

Não sentia a ferida amaldiçoada da mão nem um pouco, nem mesmo no bar. Era realmente uma boa cidade para se viver. Procurei então uma pousada.

Entre as casa térreas que margeavam as ruas daquele povoado, próximo a região central, havia uma pequena hospedaria, não era pequena demais nem tão pouco era um hotel. 

Suficiente para eu não ter que voltar na mesma tarde, perigando ficar a mercê de dirigir a noite. Após tudo que aconteceu, meu sono se tornou estranho e sensível. Laio já insistia que eu me tornara narcoléptico e já receitava uma pequena lista de remédios para os nervos. 

Tanto o quarto quanto a cama que aluguei pela noite me eram bem confortáveis e por entre as frestas da persiana de madeira eu conseguia ver partes da catedral que marcava o centro da cidadezinha.

Para não me perder no sono, deixei o rádio do celular bem baixinho como já fazia meu velho pai. Era para facilitar o regresso do mundo dos sonhos dizia ele. 

Não sei ao certo quanto tempo se passou, mas a rua já se fazia silenciosa quando escutei ruídos vindos do telhado, percebi aos poucos minha mão marcada começar a formigar. De olhos bem atentos, já não fazia som algum, apenas o Kansas continuava a tocar em alguma velha rádio local. Saquei da minha arma e recostei junto a janela para tentar observar algo que pulava e se agarrava a torre lateral da igreja. Estava escuro mas ainda podia vê-lo pela luz do luar, era algo similar a um cachorro muito grande.

Abri a janela bem devagar para não ser percebido e com a luz apagada me esgueirei como pude sem perder a criatura de vista. A mesma forçava seu grande corpo para o topo e ali, na grande cruz, ficou dependurado observando. Por um momento pensei que estivesse me encarando, meu sangue gelou as veias.

O ser obscuro observava imponente até que seu olhar parou no sentido para o final da rua da igreja.

Esgueirei entre postes e pilares das casas enquanto tal criatura se locomovia naquela direção. Não demorou muito e perdi o monstro de vista. 

Por mais que eu tenha recebido treinamento e me aprofundado em técnicas de investigação, furtividade não era das minhas melhores habilidades. 

Apos dar algumas voltas pelo quarteirão e sem encontrar pistas voltei frustrado para a pequena hospedagem. 

No dia seguinte telefonei para Natália, minha auxiliar para dizer para a mãe que não havia nada de anormal mas que como o clima da cidade era agradável eu permaneceria mais uns três dias como uma espécie de férias curtas. Minha jovem parceira não gostou muito pois quando eu me ausentava mais que dois dias era para Natália cuidar do escritório e atender a todos que me procurassem pelos serviços.

Após comer um grande pedaço de bolo e apagar meu sono com uma generosa xícara de café rumei para a pequena capela. 

Meus passos curtos aproveitavam do meu relaxamento e nesse momento, cada detalhe dos poucos metros até eu me por de frente ao templo cristão eram bem vívidos aos meus olhos. Havia um cheiro de incenso que vinha do interior da grande casa a minha frente. A grande porta de madeira rustica estava aberta e já a poucos metros da pequena escada de três degraus era possível observar o cristo pendurado na cruz, surrado e com sua coroa de espinhos. Sua expressão me causou uma certa repulsa, não pelo que cristo representa mas por aquilo que milhares de homens fizeram e fazem em seu nome. 

Por um instante me perdi profundamente na questão do que eu estava realmente fazendo ali. Me arrisco demais nessa busca quando deveria fechar meus olhos para esse mundo por trás da cortina.

"Ele venceu a morte por nos..." 

A voz bem suave vinha de um senhor que beirava bem os noventa anos. A batina preta e a gola branca me deixara um pouco surpreso, não era todo dia que eu falava com um padre.

Padre Carlos possui muito vigor para sua idade e tanta calma que faria de qualquer transito caótico de São Paulo um local legal.

Depois de umas duas horas que acompanhei padre Carlos pelos seus afazeres naquela simples igreja, revelei para ele minha insatisfação na empreitada (mesmo sem revelar os detalhes obscuros que o assunto contem). "Algo que está em oculto aos olhos da carne, estão explícitos aos olhos de Deus!" 

Mais tarde essa mesma frase faria um sentido mais do que literal...

Renata Oliveira é uma jovem de no máximo dezessete de idade com as sardas que salpicam suas bochechas, com o todo do rosto adornado por seu longos cabelos castanhos e seus grandes olhos azuis. Essa jovem adentrou as pressas os umbrais do mercadinho que também era adega e também ponto de encontro dos moradores daquela pequena cidade. "Um litro de leite seu Antenor!" 

Sentado ao canto do balcão eu observava sua pressa e o motivo de uma jovem que é filha de uma família que tem de tudo vir até a cidade buscar apenas um litro de leite. 

Seu Antenor não questiona e nem cobra o valor pelo leite e assim como entrou, Renata retoma seu caminho de casa.

Mais uma coxinha e uma soda pedida ao homem atras do balcão e uma pergunta como quem não quer nada. A resposta foi mais estranha do que a ação de Renata. "Não se envolva com aquilo que não entende."

Paguei os lanches e os refrigerantes, sem questionar passei pela porta da velha adega foi quando meu sangue gelou. A ferida em minha mão se abre e começa a sangrar com uma pontada fina. Um vento arrasta um turbilhão de folhas secas e o pó da rua. Mesmo no meio da tarde, uma grande nuvem escura de chuva retorcida paira no horizonte lá para os lados dos Oliveira. Meti as mãos no fundo dos bolsos da jaqueta surrada e sigo caminhando, quero me aconselhar com o pastor.

A estrada de terra vermelha era até boa mas não deixava de ser de terra. Já a meio caminho da casa grande dos Oliveira percebo que o ar está denso e parado. Nem mesmo os pássaros cantam. "Aquilo que está oculto aos olhos da carne..." Algo rosna dentre as árvores. Não identifiquei o animal rapidamente, minha arma já procura seu alvo e é quando vejo ele surgir em meio ao capim alto. Agora durante o dia sua imagem fica clara, mesmo que seja perturbadora e surreal sua existência, suas presas e garras aliado aos traços lupinos evidenciam quem é e que minha morte se aproxima a cada passo seu.

Com toda raiva transmitida pelo grito de minha pistola, o tiro surra o couro e a pelagem do monstro. O único pensamento que me vem é aquela criatura deve morrer!

Com o ombro sangrando, o monstro foge em meio ao mato. Toda uma coragem sobrenatural me preenche e mesmo a dor da mão some em meio a perseguição. 

A incursão não me permitiu descansar e a cada momento favorável eu disparava contra o monstro.  

Foi então que após a constatação de seu óbito foi que reparei onde estava e meu corpo pesou naturalmente. Deixei a arma escorregar por entre os dedos após me sentar bruscamente no solo. Tudo ali era sujo e tinha um tom de podre. Não era escuro, no entanto só me permiti ficar ali sem qualquer receio por conta da aberrante forma que jazia sangrando caído próximo a mim.

A certeza que morrera veio da cicatriz em minha mão que parou de sangrar. Sempre que estou perto dessas coisas, que sabe-se lá de onde vieram, dependendo do quanto for agressiva a besta, minha mão formiga, as vezes essa marca dói e no pior dos casos chega a sangrar. Melhor isso do que a loucura de deitar a cabeça a noite fingindo acreditar que nada disso aconteceu ou que monstros não são reais e que não existem inocentes.

Deitado sobre a relva, pensei nas palavras do padre "Algo que está em oculto aos olhos da carne, estão explícitos aos olhos de Deus!"

Devo correr, quero ceiar com os Oliveira...




Eu não me lembro II

Por Dan Cilva

Acredito ser algo em torno de umas dez horas quando avisto algumas casas ladeadas por cercas e arame farpado.
As cigarras enfeitam o ar com seu som tipico e o cheiro de café fresco me atrai até a entrada de uma das pequenas moradias ali presentes. 

Pouco antes de bater a porta, a mesma se abriu. Quem me atendeu foi uma pequena senhora, aparentava beirar os noventa anos. Eu a encarava desconfiado o que de certo tornou difícil uma abordagem mais amistosa. Foi a mesma que logo perguntou de onde vinha e se eu estava bem.

Apos me acolher e me permitir o banho, poderíamos ter uma conversa civilizada

Já livre de minhas vestes, cada gota que caia sobre meu corpo o relaxava trazendo uma sensação de profunda segurança. Bem ao fundo do som das gotas de água caindo no fundo da banheira e do chuveiro fervendo a água acima de mim, ouvia singelas notas tiradas de um sino de vento pendurado em alguma janela. 

Tudo aquilo estava muito bom, mas como explicaria para a senhora o que havia se passado comigo na noite anterior? Como dizer a ela que fui perseguido por algo não humano e que apenas uma velha capela me protegeu da morte certa?

Engraçado como algumas pessoas de idade conseguem ser tão silenciosas. Desliguei a água, fui me secar e reparei que sobre a tampa da privada estava uma muda de roupa. 

Novamente guiado pelo cheiro de café quente cheguei até a cozinha onde havia no centro da mesma uma mesa com quatro cadeiras,  café no bule azul e pão caseiro acompanhado de uma roda de queijo bem amarelinho.

A velha senhora me observava sentada na cadeira de frente para mim. Havia um sorriso nostálgico em seu rosto, por alguma razão aquilo me confortava ainda mais. Apos insistir que eu me sentasse e combinar os alimentos postos a mesa, comi se não houvesse visto comida há dias...

- Ele está atras de você!

Quando estas palavras saíram da boca dela, um arrepio profundo me percorreu me trazendo de volta a realidade. 

- Como a senhora sabe?

Foi quando notei um estranho simbolo tatuado na parte interna do pulso da minha acolhedora.

- O que fizeram com você, meu filho, é muito forte...

Bateram a porta, assim sem pressa. A senhoria levantou e com um gesto pediu que eu esperasse sentado, que a conversa que tínhamos era de suma importância. 

Foi quando saiu da cozinha que uma sensação de urgência me tomou, eu precisava sair dali.
Levantei as pressas tentando fazer o minimo de barulho, esgueirando pelos cantos logo atras da senhora que vi quem estava a porta.

O coveiro estava em pé, ali do lado de fora, mudo, parado sobre os dois pés sujos de terra preta. Trazia sobre os ombros uma pesada pá e na cabeça um velho chapéu. Nenhum dos dois disse uma palavra, logo então a velha senhora bateu a porta e me guiou de volta para a cozinha.

-Ele não pode entrar, não foi convidado.

Eu não entendia nada nem mesmo o que ela fazia ao apagar as luzes e fechar as janelas. Logo limpou a mesa e eu só a observar sem piscar uma vez sequer. Logo que voltou, deixou sobre a mesa uma velha caixa de sapatos de onde tirou um surrado baralho de tarô. Acendeu uma vela ao centro da mesa, foi quando notei o profundo azul de seus olhos.

- Há um fardo muito grande e urgente sobre seus ombros. Agora que você está visível para o demônio, ele vai te caçar até o fim dos seus dias.

As vezes quando não entendemos algo, um riso desconcertado aparece em nosso rosto, uma tentativa frívola de quebrar a seriedade de um momento difícil. 

- Antes de prosseguir, gostaria de me apresentar. Meu nome é Agatha... (continua)




  

Eu não me lembro

Por Dan Cilva

Era bem tarde e as estrelas eram o único farol a conduzir aquela viagem perdida.
Cabeça já pesada querendo deitar ao volante e mesmo assim quero ir para o mais longe possível daquele lugar.

Perdi-me no tempo, alonguei demais o jantar naquele restaurante de beira de estrada. 
O zumbido dos pneus contra o asfalto rachado, cascalho por cascalho e a borracha negra acinzentada que se desgastava em meio a trilha escavada na terra pelo próprio homem. 

Meus dedos suam enquanto os cravo firmemente no volante, raramente cruzo com outro carro e aquele meu par de faróis acabam solitários em meio a escuridão. A noite me atormenta e por mais que não queira assumir, o som continuo do motor se perde em meio a minha mente que se esvazia de todo o senso logico e da calmaria diurna. Já ouvi falar muito dessas coisas, que é bem nessa hora da noite que ela vem. Bem aqui na estrada, ladeando os imprevistos procurando perturbar a paz daqueles que apenas ali passem.

Vejo ponteiros, não há mais ninguém aqui...

Uma curva apos a outra e meu caminho se torna mais e mais curto. Sinto meu coração apertar quando apos cruzar um túnel em meio as montanhas,  tenho um rápido vislumbre de algo que aparenta ser uma cruz branca entre algumas baixas arvores, alguém morreu prematuramente ou tardio demais. Ali jaz homem ou mulher, criança ou idoso. Esse pensamento tristonho logo me levou para uma triste situação a qual me encontrei há alguns anos onde segui o cortejo fúnebre de um infante que partiu deste mundo tendo estado aqui tão curtamente, não por razão de doença mas pela mão do homem. Ao menos foi o que disse o coveiro. Naquele dia, não havia quem no canto do olho não derramasse uma lagrima sequer.

A mãe piedosa, como sofria aquela mulher que não vinha buscando culpados nem maldizendo seu destino, vinha copiosamente em um silencio e sua feição congelada em uma expressão de profunda dor daquele tipo de dor que não desata a garganta, que mata a gente aos pouquinhos. As lagrimas não rolaram por seu rosto, talvez essa tenha sido a maldição que carregaria pelo resto de seus dias. 

Era uma pequena caixa angular de madeira em branco, adornada com detalhes em prata. Até o ar naquele momento era mais denso e era possível sentir todo o peso daquilo que doía em todos que por ali passavam. No tampo havia uma pequena janela por onde era possível ver flores de diversas cores, as mãozinhas, o rosto. Aparentava sonhar. 

Eu o vi descer lentamente, por maldade ritualística e por falta de outro jeito de faze-lo, o infante desceu lentamente ao chão. 

Depois que todos se recolheram, eu fiquei. Observava tudo por alguma razão mistica, meus pés não queriam me tirar daquele recanto. O que eu sentia, talvez por não ser da região, era um misto de pavor que subia compulsivamente pela pele com um senso desnorteado de justiça. Caminhei mais alguns passos agora que estava só. Havia algo que eu pudesse fazer?

Uma ultima lembrança, um gesto mesmo que simbólico de corrigir as coisas?

Um telefone me acorda do meu transe, é da recepção, já está na hora de eu partir do hotel. Eu não me lembro, está escuro. Respondo para a voz da mulher do outro lado que descerei em breve. Tateio o criado mudo na procura pelo abajur. Um clique bastou para me atirar de volta a realidade. Eu estava todo sujo de terra preta e vejo pelos cantos do quarto toda sorte de velas apagadas e meio derretidas. 

O que houve comigo? 

Eu não me lembro

Apos lavar meu corpo a calma volta as pitadas mas o breu que se formou nessa lacuna de tempo continua. isso foi alguma brincadeira de péssimo gosto de algum ser perturbado daquele vilarejo esquecido por Deus. 

É dada a terceira noite e não consigo dormir sem ter a nítida e insana sensação de que mais alguém me acompanha. Não posso dirigir a noite, não quero ver a noite. É no escuro que essa presença de seja lá o que for vem me acompanhar, me esperar.

Eu tenho que parar em algum lugar, preciso de café ou estimulante que seja. Preciso de luz. Aqui está escuro demais, é no escuro da noite que ele vem.

Entre as curvas e tuneis escuros que ele respira junto a mim, é neste entre  esquecimentos que ele me perturba, foi no vislumbre de seus olhos no espelho retrovisor que perdi a direção e fui jogado da estrada para um abismo negro e sem fim. Enquanto o carro revira e volta entre as pedras e o capim no longo paredão ingrime creio poder ouvir algo tamborilando no porta malas e este som mesmo em meio ao caos da morte que se aproxima me joga ao lampejo de momentos. 

Há uma cabeça humana no meu porta malas.

Apos o impacto contra a rocha que parou o veículo antes de cair livremente em um riacho logo a baixo, duzentos metros mais precisamente, sinto todo o corpo doer e mesmo assim consigo me arrastar para fora dos escombros de meu veiculo. 

Vou arrastando de uma perna e com dificuldade vejo o brilho da água escura correndo no fundo do abismo.

Sorte?

Eu não quero ver, mas preciso. Volto para o que sobrou do carro, toda sua lataria retorcida e descascada mas quando chego ao bagageiro é onde está o estrago mais estranho. Cortes paralelos que forçosamente abriram o porta malas, o que havia em seu interior provavelmente foi espalhado pela mata acima.

Preciso de ajuda, não posso ficar aqui até amanhecer, sei que não sobreviverei.

Rasgando as pontas dos dedos no pedregulho e mato que compõe o paredão apos uma hora de esforço desumano chego em fim a estrada.

Eu preciso de um lugar para me esconder. Sei que está a minha volta e que pode findar minha existência a qualquer instante. Que assim que desejasse eu seria tal qual a cabeça que decapitei...

Eu me lembro. Havia no povoado uma mulher que mexia com o obscuro e que invejava a jovem mãe do enterro de ontem. Que foi essa mulher a levar a vida da criança para alimentar suas maldades ou algum demônio que fosse. Que não mediria esforços para fazer a jovem mãe sofrer. Uma pessoa que se alimenta do sofrimento alheio não pode ser humana. Assim me contou o coveiro...

Lembro de estar no cemitério, lembro de caminhar entre as casas e becos no vilarejo, por entre as arvores do bosque que ninguém ia tarde da noite. Entre memórias vejo que havia sangue em minhas mãos e que fizeram comigo algo macabro que custo a acreditar ser real.

A madeira range e a porta quase cai ao chão quando socada três vezes em meio a escuridão. Meu coração quase se vai com o terror que me toma. Encontrei a pouco uma velha casa abandonada que consegui me encobrir na própria escuridão, na esperança de me proteger. Aquilo está lá fora e veio me buscar mas por qualquer razão não adentra a casa.

Sinto o suor frio escorrer pelo meu corpo. Tão violento quanto, meu coração bate de forma ensurdecedora ao ponto da vertigem e pouco me lembro senão o cair exausto e entregue. Não aguento mais...

Tudo escuro e logo em seguida água, fria e contínua em meu rosto, escorria pelos furos no telhado de uma velha igreja abandonada. Chovia de maneira que não era possível continuar mais tempo ali. Aos poucos me removendo até a saída, reparei que o sol já vinha entregando o dia para os vivos e que eu poderia seguir viagem pela estrada.

Espero encontrar uma cidade o quanto antes...  (continua)